“Encontrar
é achar, é capturar, é roubar, mas
não há método para achar, só uma longa
preparação. Roubar é o contrário de plagiar,
copiar, imitar ou fazer como. A captura é sempre
uma dupla-captura, o roubo, um duplo-roubo, e
é isto o que faz não algo mútuo, mas um bloco
assimétrico, uma evolução a-paralela, núpcias
sempre ´fora´e ´entre´”.
Gilles Deleuze e Claire Parnet, Dialogues
As ideologias que se assentam em torno da idéia de que “todos
são iguais perante a lei” colaboram para que se gere, imaginariamente,
uma sociedade ideal, na qual as diferenças são minimizadas.
Sabe-se, no entanto, que a sociedade é composta não apenas
de relações duais, mas também assimétricas,
e que a uniformidade entre o eu e o outro é inexistente. Passa
a ser necessário, portanto, pensar a identidade e as relações
sob uma exterioridade e uma interioridade fragmentadas, e, principalmente,
a partir da concepção de transformação, visto
que a identidade está em constante movimento de construção
e desconstrução, através de incessantes mecanismos
de inclusão e exclusão.
É pensando neste deslizamento e intercruzamento de identidades
que Rodrigo Braga cria a sua Fantasia de Compensação, apontando
não apenas a constatação, mas o desejo das identidades
de se articularem e se diluírem na contemporaneidade.
Este processo de predação ontológica, agora concretizado
na imagem do artista fundido a um cão, deve ter começado,
contudo, muito antes. Rodrigo afirma que, onze anos antes do surgimento
da imagem zoomórfica em sua mente, quando, ainda adolescente, sofria
de fobia-social, um dia, a caminho do colégio, deparou-se com um
cão raquítico que aparentava estar sofrendo. Nas palavras
do artista:
“Ele se tremia enquanto
tentava ficar de pé. Assim que cruzamos olhares, caí no
choro no meio da rua. Achava absurdo o que estava acontecendo comigo,
mas também não conseguia me controlar. Esbocei voltar para
casa, tentei seguir adiante e fui chorando e suando ainda no ônibus.
Tinha muito medo que as pessoas me notassem doente como aquele cachorro”.
Ainda neste intervalo entre
a alocação de uma sensação e sua tradução
em imagem, o artista narra um outro episódio, este mais recente,
vivido aproximadamente três meses antes da idéia do trabalho
– a experiência do dissecamento de um bode, sobre o qual comenta:
“...ela [a mulher que
deveria dissecar o bode] me deu um facão e um martelo para que
eu fizesse a tarefa. Titubeei, pois já estava um pouco chocado
com as imagens de vísceras, mucosas e pêlos ensangüentados
que via em minha frente. Não tinha certeza se eu, ser tão
urbano, seria capaz de tal despojamento antes de comer aquilo tudo à
mesa... Mas fiz. E muito ficou guardada em minha mente a imagem da separação
entre o crânio e o focinho do animal”.
Não sabia Rodrigo
Braga que não apenas ele teria coragem de comer tudo aquilo à
mesa, mas que sentiria a necessidade de comê-los novamente, desta
vez antropofagicamente, através de um contemporâneo ritual
de canibalismo.
Vale ressaltar que aqui não me refiro à antropofagia ou
canibalismo no sentido unicamente literal da palavra, já que o
artista não devora outro homem e nem mesmo devora um animal (o
trabalho é realizado em uma realidade paralela, através
da manipulação digital da fotografia), mas num sentido mais
abrangente, simbólico, pois, como nos lembra o antropólogo
Marshall Sahlins, o canibalismo “é sempre simbólico,
mesmo quando ele é real”. O que está em questão
é a disposição do homem de tornar-se outro, não
de tornar-se o outro, mas sim de acrescer, à sua identidade, características
que julga não lhe serem intrínsecas, mas cujo desejo de
possuir ele manifesta.
Assim, buscando no outro algo que não encontrava em si –
conceito antropofágico onde, com a devoração, o devorador
adquire as características daquilo que digere, Rodrigo Braga procura,
num animal, através de um comportamento antropofágico seletivo,
características que crê não (ou pouco) possuir. Aparece,
desse modo, a figura do cão.
Neste, Rodrigo procura a força, a ferocidade, a coragem e uma postura
afirmativa. É interessante perceber como o artista reconstrói,
antes do “sacrifício”, a identidade da “vítima”
(cão), impregnando-a, ainda que animal, de características
de uma categoria humana não-sacrificiável, estabelecendo,
assim, um deslocamento da possível vontade de sacrificar um ser
humano com tais características – e assim dar-se-ia, literalmente,
um ritual antropofágico – para um animal: estratégia
que denota, entre outras coisas, a relevância simbólica dada
pelo artista à imagem por ele construída.
Não se trata necessariamente do cão mitológico, psicopompo
(guia do homem na noite da morte) ou guarda dos locais sagrados, do cão
como intercessor entre este mundo e outro, do cão como conquistador
do fogo, feiticeiro ou símbolo da voracidade sexual do homem –
como encontramos nas diversas mitologias do ocidente e do oriente; mas
sim de algo que é inerente a todas estas idéias de cão:
a de um animal impositivo, que, assim como o lobo, o jaguar e o tigre,
é um devorador do tempo, animal tão puro e misto entre o
divino e o diabólico que, em algumas culturas, diz-se que quem
o mata torna-se impuro, pois cometeu um ato tão grave quanto matar
sete homens.
Fundindo-se a este animal, o artista não apenas reafirma o já
tão apontado devir-animal do ser humano (animalidade que lhe é
subjacente e que não o inferioriza), mas enfatiza o desejo de um
recomeço, propiciado pelo próprio simbolismo do cão,
que, acompanhando o homem em sua morte, inicia-lhe em uma nova vida (talvez
por isso creia-se, no Japão, que a presença de sua efígie
facilite os trabalhos de parto).
A violência desta vontade de transformação percebe,
na antropofagia, o seu lugar ideal, pois encontra algo para devorar, assim
como a recorrente violência e os aspectos de tortura da produção
de Rodrigo Braga vislumbram, também através do ritual antropofágico,
uma espécie de catarse. É o artista, que, ao dar ao seu
trabalho uma conotação autobiográfica, utiliza a
arte como válvula de escape, impressionando aqueles que, ao se
depararem com o hibridismo da sua imagem, pasmam por admiração
ou estranhamento.
Este hibridismo, por sinal, ganha ares de sobrenatureza, ora pela crença
geral de que a ordem natural não pode ser perturbada gratuitamente,
devendo haver, por trás desta perturbação, algo de
divino; ora porque, pelo próprio simbolismo do ato canibal, este
seria uma técnica de acese, um meio de ascender ao estatuo de sobrenatureza.
Todavia, este aspecto híbrido pode produzir, também, o efeito
contrário. Assim como o cão, para algumas culturas, é
um símbolo satânico, o Fantasia de Compensação
pode, porventura, provocar repulsa por parte do observador, que não
unicamente pode enxergar o mal diante do que vê, mas que pode eticamente
questionar o trabalho, afirmando ser assassina a atitude do artista (ainda
que, de fato, ele não tenha sacrificado um cão exclusivamente
para a execução do seu trabalho – o cão utilizado
já fora sacrificado pelas autoridades competentes).
Este tipo de reação, além de legítima, é
também um dos objetivos de Rodrigo Braga, que, assim como Hitchcock,
está “pronto a proporcionar choques morais benéficos,
[visto que] a população tornou-se tão protetora que
já não nos é possível conseguir instintivamente
o calafrio. Por isso, a fim de nos desentorpecer e recuperar nosso equilíbrio
moral, é preciso provocar este choque artificialmente” (declaração
feita pelo cineasta em 1986).
As imagens do trabalho são, por outro lado, também muito
fortes. Além de apresentar todas as etapas do processo cirúrgico
ao qual haveria se submetido o artista (à semelhança das
etapas do processo antropofágico: agressão e morte, incorporação,
apropriação e assimilação, e conseqüente
produção de um novo corpo) – processo nada agradável
aos olhos, uma vez que é repleto de carnificina; a mídia
através da qual estas imagens são veiculadas – a fotografia,
concede-as uma realidade quase inquestionável, decorrente do caráter
indicial que lhe é inerente, fazendo com que recaia, sobre a figura
do artista, a idéia de uma pessoa, no mínimo, insana. Traça-se,
assim, tanto sobre o trabalho quanto sobre o artista, a dualidade divino
/ satânico, tão instigada pela imagem de um homem metamorfoseado
em cão.
A metamorfose, por sua vez, é, assim como o é a antropofagia,
signo do inconcluso, onde uma personagem em via de individualização
ainda não assumiu a totalidade de seu eu e nem descobriu todas
as suas potencialidades, restando ainda espaço para a interferência
do outro e a expansão do eu. Rodrigo Braga estaria, então,
em busca da afirmação de sua identidade através de
um processo de renovação de sua experiência pessoal.
É como se o artista vestisse uma máscara (de fato insinuada
em seu trabalho) que o propiciasse a tomada de consciência de seu
lugar dentro do universo, distinguindo-o como pessoa (foi, aliás,
um personagem mascarado do teatro grego, Prosopon, que deu origem ao substantivo
pessoa).
Marca do indivíduo, o rosto, alvo simbólico da ação
antropofágica de Braga, é o eu íntimo parcialmente
revelado, mas que, contudo, encerra em si um problema: ninguém
jamais viu o seu próprio rosto diretamente, senão pela ajuda
de algum tipo de espelho. Dessa forma, pode-se especular se, à
semelhança do conto “O Espelho”, de Guimarães
Rosa, ao olhar-se no espelho e ver um animal, não é uma
miragem o que o artista enxerga, mas sim o resultado de um olhar atento
sobre si mesmo, sem que ele mesmo o tenha percebido...
É Bataille que nos fala sobre a possibilidade de, erroneamente,
estarmos baseando-nos na ausência como força motivadora dos
rituais de sacrifício, quando, por trás desta aparente e
talvez simplista idéia de ausência, pode estar uma insaciável
fome do organismo. “O ato de comer”, diz Daniel Birnbaum,
ao falar do pensamento de Bataille, “por ocasião dos rituais
de sacrifício, pode ser interpretado de maneira radicalmente antieconômica,
não como uma vontade de ganhar, mas como puro dispêndio –
um consumo ilimitado da energia excedente que resiste à assimilação”.
Não poderia estar, então, o artista desejando possuir algo
que já o habita em segredo, dissimulado pela ação
da pele?
Esta possível confusão entre o ideal e o real (tanto quanto
às questões sígnicas como às midiáticas),
a ponto da diferenciação entre estes se tornar uma tarefa
complexa, é, em verdade, o alicerce primeiro da Fantasia de Compensação
de Rodrigo Braga. Alicerce este suficientemente assentado, a ponto de
sobrepujar o medo da destruição do corpo para transformar-se
em coragem metafórica e real, uma vez que, ainda não tendo
havido a devoração da carne, ocorreu o princípio
da magia, que, advinda da instauração do desejo, ocorre
em pensamento, sendo indiferente às noções de espaço
e tempo (tudo o que pode ser feito às idéias das coisas
inevitavelmente acontecerá também a elas) – é
o princípio da onipotência dos pensamentos.
E quem duvidará da potência de um pensamento que levou sugestivos
nove meses para surgir?
Em Fantasia de Compensação, é o princípio
da elasticidade da vida que é mais uma vez testado por Rodrigo,
fazendo-nos entender que todos os artifícios são válidos,
desde que os resultados sejam múltiplos e, em algum sentido, verdadeiros.
“Rodrigo
Braga volta de uma suposta cirurgia
trazendo consigo
a vitória do homem que se confrontou”.
Cynthia Rocha,
Análise estética de Fantasia de Compensação
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